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Projecto 31 Dias de cinema: Quem somos nós?

Este é o dia #2 do Projecto 31 Dias de Cinema.

Os títulos que integrarão este projecto não seguirão nenhuma ordem específica e poderão ser de categorias diversas, de aventura a acção, passando pela animação ou pela comédia. O meu objectivo será sugerir títulos com uma mensagem espiritualista/universalista de fundo, algo com o potencial de nos deixar a pensar sobre a nossa natureza ou que nos motive/inspire.

Quanto à sugestão de hoje, este é mais um título antigo que vale a pena ver ou rever…

Quem somos nós?

Como falar deste filme?

Este é um dos filmes que iniciaram uma nova vaga de filmes que nos fazem pensar e nos trazem ao grande ecrã as chamadas questões da Nova Era. Talvez não ao grande ecrã, uma vez que são produções não (ou menos) holiwoodescas e de produção independente, fadadas a um público inferior em número, mas talvez com maior interesse pelos temas abordados no mesmo.

Quem julgava que não havia mercado para este tipo de filme e rotulava o projecto de suicídio financeiro, surpreendeu-se com os resultados conseguidos, sendo estes em maior parte resultantes da publicidade de boca.

Sem dúvida não será para todos os gostos, não sendo indicado para quem procure no cinema apenas um momento de entretenimento, aconselho-o a quem goste de metafísica e todas estas questões que cada vez são mais aberta e amplamente debatidas.

Aconselho-o, avisando no entanto que é um filme bem diferente daquilo que se espera. “Parte documentário, parte drama narrativo, parte visualmente alucinogéno, este é um filme que desaparece com a porta do armário que esconde a metafísica.”

É um filme que mistura entrevistas com cientistas, neurobiólogos, físicos, psiquiatras, efeitos especiais e uma história que nos vai mostrando na prática aquilo de que os cientistas vão falando. Ou será que os cientistas é que nos vão explicando aquilo que a história nos vai mostrando? 🙂

Gostei tanto da mensagem deste filme e da forma como a faz passar de uma forma tão simples, que se torna difícil escrever uma sinopse. Gostei tanto de uma crítica que li no Internet Movie Database sobre o What the bleep que não resisti a traduzir (livremente) parte dela. Os créditos são de Janet Boyer, dos EUA.

«Na história temos Marlee Matlin (actriz principal de Filhos de um Deus Menor) a representar o papel de uma fotógrafa de nome Amanda que cai na “toca metafísica do coelho”. Através de uma série de eventos que a fazem mudar a sua forma de pensar, ela vê-se forçada a confrontar aquilo que pensava ser realidade, assim como a fonte do seu aborrecimento, ansiedade e auto-comiseração.

À luz da física quântica (que, resumidamente, é a física das probabilidades), os produtores exploram o conceito de múltiplas realidades existindo ao mesmo tempo. Apesar de universos paralelos e alternativos serem material do Star Trek, este conceito não é tão rebuscado considerando que os cientistas reproduziram uma partícula de luz que existe em dois lugares ao mesmo tempo. Não apenas isso, mas electrões e núcleos de átomos estão constantemente a desaparecer por completo, voltando a reaparecer. Para onde vão? Se isto acontece a um nível atómico, o que isto significará a um nível maior?

Em vez de ser a realidade a acontecer-nos, tal como assumido no velho modelo, nós acontecemos à realidade. O acto da observação… ou de nos centrarmos em algo… realmente muda a natureza do que é observado. O acto da escolha elimina as outras probabilidades. Se isto é verdade a um nível quântico, como as nossas escolhas afectam de facto a realidade?

Tudo “lá fora” é uma projecção do teatro elaborado da nossa mente, que é frequentemente o resultado de uma neurobiologia complexa que acontece “aqui dentro”. Com animações por computador apelativas e explicações científicas lúcidas, é-nos mostrado o que acontece quando células são constantemente banhadas em neuroquímicos produzidos por emoções habituais: uma dependência emocional. “Se podemos ser dependentes da heroína, podemos ser dependentes de qualquer neuropéptido (emoção)”, diz um cientista. Outro avança: “Quem está no lugar do condutor quando controlamos as nossas emoções ou respondemos a emoções? A nível fisiológico, sabemos que as células nervosas que disparam juntas, voltam a ‘rearmar’ juntas. Se você fizer algo repetidamente, essas células nervosas têm um relacionamento de longa duração.” Por outras palavras, se você se enerva ou zanga numa base diária… ou se sente como uma vítima… você está literalmente a religar a sua rede neural ao ponto de criar uma “identidade”. As boas novas são que “cada vez que interrompemos o processo do pensamento que produz uma resposta química no corpo, elas começam a romper esse relacionamento de longa duração.

Então o que isto tem a ver com a natureza da realidade? Voltamos à escolha. Nós criamos cenários que vão ao encontro das nossas necessidades emocionais. É por isto que muitos caiem no mesmo tipo de relacionamentos e dramas: existe uma dependência química da rejeição, conflito, sedução e por aí fora. Um cientista acrescentou: “Um número incrível de problemas rotulados de psicológicos têm realmente a ver com pessoas a fazerem más escolhas…” Aquilo que é pensado como sendo “realidade que nos acontece” é de facto resultado de escolhas repetidas produzindo químicos específicos que resultam em emoções específicas que se tornaram um hábito. Em vez de “as pessoas estão sempre a sabotar a minha felicidade”, torna-se numa questão de dependência química de cenários de sabotagem, por assim dizer. Nós desenhamos no “campo quântico” de acordo com a nossa intenção, ‘expectação’ e (neste caso) dependência emocional.

Se isto é verdade acerca do indivíduo, então e quanto ao que uma cultura assume? Cada geração tem muitas verdades assumidas que a história provou serem falsas (como a ideia de que a Terra é plana). Muitas destas verdades estão tão enraízadas que as tomamos como “a verdade”.

Colocar questões como “Porque estou aqui? Para onde vou? Quem sou eu? O que acontece quando eu morrer?” – o questionamento da realidade e “como as coisas sempre foram feitas” – ajuda-nos a interromper as redes neurais. Tornarmo-nos no “observador” (em oposição ao que reage inconscientemente) pode resultar numa mudança de paradigma, mudanças pessoais e momentos “aha!”.

No entanto, contemplar uma nova forma de pensar ou ver as coisas pode pregar partidas. Uma história fascinante demonstrada no What the bleep é a de Cristóvão Colombo e a sua visita aos povos indígenas da América do Sul. Estas embarcações estavam tão fora das suas perspectivas de realidade que estes povos não as conseguiam ver no horizonte. Um dia, o shamã da tribo percebeu que existiam ondulações no sentido da costa. Ele sabia que algo deveria estar na origem destas ondulações… mas o quê? Dia após dia ele se esforçava por ver, até que um dia finalmente viu os navios que se aproximavam. A sua tribo não os conseguia ver até ele descrever o que viu. E porque confiavam nele, agora podiam ver os barcos com os seus próprios olhos.

Esta história ilustra o princípio de que só vemos no nosso cérebro aquilo que somos capazes de ver. De facto, apenas vemos o que acreditamos ser possível. Talvez isto explique porque os místicos conseguem ver anjos e outras realidades: para eles, crer é ver. Biologicamente, o cérebro processa 400 biliões de bits de informação por segundo, mas só temos consciência de 2.000 bits em qualquer momento – geralmente informação sobre o corpo, tempo e ambiente. Mas o que está o cérebro a perceber/receber que nós não estamos a “ver” ou integrar?

Em ajuda à ciência da percepção e da realidade, um teólogo, Ramtha, e outros cientistas discutem a natureza de Deus, espiritualmente e em interligação com todas as coisas. Um dos problemas da religião, de acordo com um teólogo, é que Deus foi “moldado” como uma entidade distinta e separada à qual devemos oferecer adoração e graças – tudo na esperança de obter uma recompensa no final da vida. De acordo com este homem, “isto não é aquilo que Deus é. Isto é blasfémia.”

Ramtha concorda com a minha citação preferida do filme:

(e que me desculpe ao ler, mas optei por deixar esta citação na língua original)

“God must be greater than the greatest of human weaknesses and, indeed, the greatest of human skill. God must even transcend our most remarkable-to emulate nature in its absolute splendor. How can any man or woman sin against such greatness of mind? How can one little carbon unit on Earth-in the backwaters of the Milky Way, the boondocks-betray God almighty? That is impossible. The height of arrogance is the height of control of those who create God in their own image.”

A questão não é se concorda com as ideias apresentadas no filme. Se as pessoas pelo menos contemplarem uma perspectiva alternativa – então este filme terá sido bem sucedido. What the bleep do we know? (Mas que raio é que nós sabemos?) não lhe diz o que pensar, simplesmente lhe oferece ideias e teorias para sua consideração. No mínimo, abre um diálogo entre as pessoas. E, talvez, se as pessoas começarem a falar umas com as outras – especialmente sobre conceitos como realidade, Deus, espiritualidade, escolha e potencial humano – haverão falhas nas verdades individuais e colectivas de forma a abrirem caminho a ideias nunca consideradas como possíveis anteriormente.»

Por Janet Boyer, ao IMDB

Podia talvez ser melhor explorado denso a nível de respostas, no entanto considero-o uma excelente introdução ao tema. Para quem gosta destes temas, poderá não trazer novidade alguma, mas pensem só nas possibilidades que oferece levá-los de um modo mais aberto, de forma simples, às grandes massas, mesmo sendo um filme de distribuição independente, mesmo não chegando às grandes salas de cinema… hoje!… o dedo “cutucador” pode chegar ainda mais longe e a cada vez mais pessoas… aquele que nos leva a pensar “e se…?”

Aquele que nos leva a pensar!

Ao bom estilo “thought provoking”, como eu tanto gosto… aconselho vivamente!

Título original: What the #$*! do we (k)now?! (what the bleep do we know)
Ano: 2004
Mais info: IMDB
Aluguer instantâneo na Amazon: What the Bleep Do We Know!?
Trailer no YouTube
Filme completo legendado no YouTube

Já viu? O que achou?

Beijos cinéfilos,

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